Como o aumento da taxa de juros pode atrapalhar a retomada da economia

Atualizado: 6 de out. de 2021


Em busca de conter a disparada nos índices de inflação no país, o Banco Central anunciou nesta quarta-feira, 22, a elevação da taxa básica de juros, a Selic, em 1 ponto percentual, para 6,25% ao ano. A medida era vista como inevitável por economistas, mas atrasada, já que deve ser acompanhada por outros reajustes graduais no futuro.


Mais do que isso, o avanço na Selic voltará a impor maiores dificuldades para empresas e pessoas físicas que trabalham com o crédito. Com os empréstimos ficando mais custosos, a expectativa é que as companhias posterguem investimentos e contratações. O resultado disso é que uma retomada mais vigorosa da economia em 2022 deve ser adiada para um tempo mais distante.


Entre as suas principais linhas de defesa de suas ideias, o ministro da Economia, Paulo Guedes, jactava-se de ter proposto um novo modelo econômico ao país. “Agora, o país virou o inferno dos rentistas”, dizia ele, aos quatro ventos. Segundo o ministro, as pessoas deveriam se acostumar com uma nova realidade, que teria uma taxa Selic mínima e, como consequência disso, o câmbio internacional ficaria mais valorizado frente ao real, sustentando o crescimento das exportações de commodities.


Realmente, o dólar disparou. Quando Jair Bolsonaro assumiu o poder, a moeda americana estava cotada a 3,87 reais, algo distante dos 5,29 reais atuais — o que não acabou sendo uma vitória da previsão de Guedes. Afinal, a taxa de juros, que, desde o início do governo, chegou a cair paulatinamente, acabou precisando sofrer agora reajustes. Com as recentes altas promovidas pelo Banco Central, a Selic se aproxima da taxa herdada do governo de Michel Temer, de 6,5%, e há a sinalização de que os juros devem subir mais 1 ponto percentual na reunião de novembro.


Empréstimos


Segundo relatório do Banco Central, a taxa anualizada dos juros da linha de capital de giro mais utilizada pelas empresas já chega a mais de 50%. É o caso, por exemplo, do Banco Original, com taxa média de 58,26%. Dentre as principais instituições bancárias, o Santander é quem oferta esse tipo de linha com juros mais altos: 39,06%. Outra linha requerida é a de cheque especial para pessoas jurídicas.


Nesse caso, as taxas são costumeiramente assustadoras. A taxa anualizada da estatal Caixa Econômica Federal, por exemplo, é de incríveis 491,6%. Na mesma base de comparação, pode-se dizer que bancos como Bradesco (395,5%), Itaú Unibanco (374,4%) e Santander (366,6%) não perdem muito.


“O impacto da alta dos juros é negativo no crescimento. Poderia ser positivo desde quando o governo anunciou medidas que estimulam a confiança para o futuro, o que não é o caso. Essa incerteza em relação ao que vai ser feito tanto na questão fiscal como monetária afasta investimento e afasta contratações”, diz o consultor Roberto Luís Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira dos Bancos, a Febraban. Para ele, o Banco Central demorou para começar a reajustar a Selic e errar ao fazer as correções a contento.


“O Banco Central demorou a reagir e subir os juros. O resultado dessa inércia é fazer mais reajustes por um tempo maior do que o devido”. Mesmo sublinhando que não pretende soar como alarmista, Troster aposta que a taxa Selic possa voltar a vigorar em dois dígitos em 2022, algo que não acontece desde 2017.

Fonte: Veja.com

Torun

23/09/2021 10:26